John Wesley, a Igreja Católica e o Ecumenismo
John Wesley, fundador do metodismo e figura central do protestantismo do século XVIII, sempre foi lembrado por seu zelo evangelístico e seu compromisso com a santidade cristã, principalmente pelo próprio William Branham que o coloca como um mensageiro da Era Cristã e também como alguém que Deus levantou. Porém, um aspecto frequentemente ignorado e esquecido é sua postura surpreendentemente ecumênica em relação à Igreja Católica Romana.
Sua Letter to a Roman Catholic “ Carta a um Católico Romano ”, escrita em Dublin em 18 de julho de 1749 [1] , é um dos documentos mais significativos do ecumenismo protestante pré-moderno. Nela, Wesley demonstra uma abertura incomum para sua época, marcada por hostilidade anticatólica tanto na Inglaterra quanto na Irlanda. Sua carta não apenas busca diminuir tensões, mas reconhece explicitamente a comunhão fundamental entre católicos romanos e protestantes.
O ecumenismo de Jonh Wesley está claro nessa carta, pois logo no início, Wesley deixa claro que seu objetivo é reduzir animosidades entre católicos e protestantes. Em um contexto de suspeita e conflitos religiosos, ele afirma que as hostilidades surgem por “ Consequentemente, ambos os lados estão menos dispostos a ajudar uns aos outros e mais propensos a prejudicar uns aos outros. Consequentemente, o amor fraternal é completamente destruído; e cada lado, vendo o outro como monstros, dá lugar à raiva, ao ódio, à malícia, a toda sorte de afeição maldosa, que frequentemente se manifestam em barbaridades tão desumanas que mal são mencionadas entre os pagãos. ”. Seu propósito declarado é promover a paz, e menciona que é criticado por essa posição até mesmo entre os protestantes:
“Não creio que toda a amargura esteja do seu lado. Sei que também há muita do nosso lado — tanta que temo que muitos protestantes (assim chamados) fiquem zangados comigo por escrever-lhe desta maneira e digam: "Estou sendo muito benevolente; você não merece esse tratamento da nossa parte." - Jonh Wesley
Wesley não tenta argumentar contra a fé católica nem tenta converter o católico. Seu foco é a restauração da caridade mútua e da convivência cristã, algo incomum entre os protestantes do seu tempo. Wesley afirma explicitamente que protestantes e católicos compartilham a mesma fé cristã essencial. Ele expõe essa “confissão em comum”.
A crença em Deus Único Criador;
A Divindade de Cristo;
Sua Ecarnação, Morte e Ressurreição;
A ação santificadora do Espírito Santo;
A esperança da vida eterna.
Também expressa a importância da Virgem Maria como sua Virgindade Perpétua e também por ser imaculada, como nesta parte da Carta:
“Creio que Ele se fez homem, unindo a natureza humana à divina em uma só pessoa; sendo concebido pela singular ação do Espírito Santo e nascido da bem-aventurada Virgem Maria, que, tanto antes como depois de lhe dar à luz, permaneceu virgem pura e imaculada.”
Ao apresentar esses pontos, alguns até mesmos polêmicos, Wesley não estabelece diferenças entre protestantes e católicos. Ele os descreve como fundamentos compartilhados, sinalizando que ambos pertencem, no sentido mais profundo, à mesma fé cristã. Esse reconhecimento é um elemento essencial do ecumenismo: admitir que há comunhão substancial, mesmo com divergências doutrinárias.
Ele afirma a Igreja Católica como parte da “Igreja universal”
Quando Wesley fala da “Igreja católica”, ele usa o termo no sentido tradicional, significando a Igreja universal. No entanto, o ponto importante é que ele não exclui os católicos romanos dessa Igreja universal. Pelo contrário, pressupõe que eles fazem parte do Corpo de Cristo.
“Creio que Cristo, por meio de Seus Apóstolos, reuniu para Si uma Igreja, à qual continuamente acrescenta aqueles que serão salvos; que esta Igreja católica (isto é, universal), que se estende a todas as nações e todas as épocas, é santa em todos os seus membros, que têm comunhão com Deus Pai, Filho e Espírito Santo; que eles têm comunhão com os santos anjos, que constantemente ministram a esses herdeiros da salvação; e com todos os membros vivos de Cristo na terra, bem como com todos os que partiram em Sua fé e temor.”
No século XVIII, muitos protestantes ainda viam a Igreja Católica como uma instituição apóstata ou antagônica ao cristianismo verdadeiro. Wesley adota a postura oposta: católicos estão dentro da Igreja de Cristo.
É um passo ecumênico nítido.
Ele chega a propor uma espécie de pacto moral entre as duas confissões. Essa cooperação ativa na caridade é um dos eixos centrais do ecumenismo moderno (especialmente após o Vaticano II), e Wesley antecipa esse movimento em quase dois séculos.
“Até aqui, não estamos de acordo? Agradeçamos a Deus por isso e recebamos como mais uma prova do Seu amor. Mas, se Deus ainda nos ama, nós também devemos amar uns aos outros. Devemos, sem essa discussão interminável sobre opiniões, estimular uns aos outros ao amor e às boas obras. Deixemos de lado os pontos em que discordamos: há pontos suficientes em que concordamos para fundamentar todo caráter e toda ação cristã.”
Ao contrário de muitos protestantes da sua época, Wesley não ridiculariza crenças católicas nem utiliza ataques doutrinários. Ele reconhece que católicos têm formação, espiritualidade e moral cristã genuína. E diz algo conciliador: que sua carta não é para discutir doutrina, mas para fortalecer o amor cristão e eliminar desconfianças.
Wesley parece, portanto, mais preocupado em trazer católicos e protestantes para mais perto dentro da fraternidade cristã do que em enfatizar diferenças.
“Em quarto lugar, esforcemo-nos para ajudar uns aos outros em tudo aquilo que concordamos que nos conduz ao Reino. Na medida do possível, alegremo-nos sempre em fortalecer as mãos uns dos outros em Deus. Acima de tudo, que cada um de nós cuide de si mesmo (pois cada um deve prestar contas a Deus) para que não fique aquém da religião do amor, para que não seja condenado por aquilo que ele mesmo aprova. Oh, que você e eu (independentemente do que os outros façam) prossigamos para o prêmio da nossa soberana vocação! Para que, justificados pela fé, tenhamos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; para que nos alegremos em Deus por meio de Jesus Cristo, por quem recebemos a expiação; para que o amor de Deus seja derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.”
Ele admite explicitamente que o católico está no caminho da salvação.
Isso está muito próximo do que a Igreja Católica formalizou pastoralmente séculos depois no Vaticano II: que “separados, mas unidos em Cristo”.
Wesley antecipa essa visão, pois:
Buscava reconciliação e não hostilidade;
Reconhecia católicos como irmãos na fé;
Identificava confissões de fé em comum;
Defendia cooperação na caridade;
Respeitava a consciência e a espiritualidade católica;
Embora estivesse inserido em um ambiente cultural anticatólico, Wesley adotou uma postura notavelmente próxima do ecumenismo posterior. Seu espírito dialogal, sua confiança na caridade como critério de comunhão e sua disposição em ver o católico como irmão fazem dele um precursor do ecumenismo cristão contemporâneo.
Séculos depois, essa atitude de Wesley se tornou a base da relação ecumênica entre metodistas e católicos. Desde 1967, há um diálogo formal entre o Vaticano e o Conselho Metodista Mundial. Documentos oficiais desses diálogos citam justamente a Carta de 1749 como modelo do espírito ecumênico wesleyano.
Enquanto Branham condena o ecumenismo, o mensageiro levantado por Deus conforme o que Branham mesmo diz, se mostrava favorável dois séculos antes.
Vale mencionar duas frases de Branham e deixar um questionamento aos branhamitas, essa posição de Wesley, não mostra que de fato, Jonh Wesley era pessoa que buscava a Santificação?
8 - “Há algum tempo, quando os luteranos tiveram seu reavivamento, um grupo chamado metodista clamou por Deus: o profundo chamando o profundo. Deus levantou um senhorzinho lá na Inglaterra chamado John Wesley , e Whitefield e outros, e eles partiram com uma mensagem de santificação. Eles encontraram mais de Deus. Você não acredita?” 52-0809 - Deep Calleth Unto The Deep Rev. William Marrion Branham
71 - “Agora, temos a Igreja: Deus os acolheu na era luterana, com a justificação; na era wesleyana , Ele os santificou; e nesta era, Ele os preenche. Entende? Ele lhes dá a Vida. E quando isso acontece, Sua Vida através do Espírito Santo… O Espírito Santo os acolheu; o Espírito Santo os santificou; o Espírito Santo os preencheu. Entende? É tudo a mesma Igreja.” 54-0103E - Questions And Answers #2 Rev. William Marrion Branham
Referências :
[1] Carta a um Católico Romano, escrita por Jonh Wesley em 1749: https://johnwesley.wordpress.com/john-wesleys-letter-to-a-roman-catholic/
Carta em PDF e em Inglês: https://wesleyscholar.com/wp-content/uploads/2023/08/Letter-to-Roman-Catholic-1750.pdf
